Texto J. Meirelles (Instituto Peabiru)
O arquipélago do Marajó, no Estado do Pará, é conhecido como o maior conjunto de ilhas flúvio-marinhas do Planeta. A mesoregião tem ao todo 104 mil km² e o arquipélago mesmo 68 mil Km². É uma área de dimensões de Portugal, sendo maior que oito Estados brasileiros.
O arquipélago reúne três biomas – o amazônico, o costeiro e o marinho, chamado por muitos de Amazônia Azul. Existem 48 paisagens diferentes na porção terrestre, sendo algumas exclusivas, como as savanas-parque em Chaves.
A biodiversidade está expressa no número de 862 espécies de vertebrados, que corresponde a 11% do total do Brasil em apenas 0,59% do território nacional. No caso, trata-se do Arquipélago apenas. Vale destacar a presença presumível de quase 20 espécies de mamíferos aquáticos, entre os quais estariam as duas espécies de peixe-boi. Entre os quelônios, as tartarugas, pode-se chegar a 17 espécies, as cinco espécies marinhas que freqüentam o Brasil e outras de ambientes de água doce.
Do ponto de vista cultural, esta é uma região, como poucas no Brasil, onde há clara identidade cultural. O Marajó apresenta significativo patrimônio material, apresentando conjunto único de sítios arqueológicos, ameaçado e desprotegido; bem como de patrimônio imaterial (mitologia, linguajar, folclore, danças, festejos, culinária etc.) sub-valorizado e ameaçado, bem como de conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade, seja manejo de recursos naturais para a farmacopéia popular, seja para outros fins. Se há uma maneira de superar a pobreza e a estagnação econômica é por meio da valorização cultural. Produtos com identidade tem valor.
São 425 mil habitantes em 16 municípios e centenas de comunidades rurais, a maioria acessível apenas de barco, nas quais 75% dos habitantes não recebem água tratada em suas casas e cerca de 500 comunidades não têm eletricidade. Muitas pessoas não são beneficiárias do Bolsa Família e outros programas. Mais de 20% dos habitantes do arquipélago não possuem sequer documentos básicos. E estamos falando de uma população extremamente jovem. A maioria da população tem menos de 20 anos.
Em termos sociais, mais de 90% de seus 425 mil habitantes é considerada pobre ou miserável. Dados recentes do IBGE indicam 13,2% para a pobreza nas áreas urbanas brasileiras e 29,4% para os residentes nas zonas rurais.
É uma das regiões de pobreza mais crônica da Amazônia e que vive grave crise econômica.
As notícias que vem do Marajó são alarmantes, e resultam de um descaso com a região que remonta décadas, ou mesmo séculos. Em nenhum momento da história o marajoara foi respeitado e foi efetivamente beneficiário dos processos econômicos locais. O déficit social acumulou-se de tal maneira que é estarrecedor quando economistas do estado de São Paulo discutem o analfabetismo no Estado, 10% no meio rural, e que no Marajó estão na casa dos 80%. O último número do Tribunal Regional Eleitoral, aponta que 85% dos eleitores são analfabetos ou não tem o primeiro grau completo. A média de anos de estudo per capta é inferior a 2 anos.
A maioria das 30 mil comunidades rurais da Amazônia, onde vivem alguns milhões de quilombolas, ribeirinhos, quebradeiras de côco, seringueiros e outros, sofrem de isolamento e descaso. Somente no Marajó estamos falando de cerca de 500 comunidades, muitas delas a vinte, trinta, quarenta horas de barco da cidade, com alguma infra-estrutura.
O Ministério Público do Estado do Pará afirma que as crianças não vão à escola porque a trocam pela sobrevivência e se prostituem. Não é só na Ilha do Marajó, mas lá é mais grave, é mais sério, é angustiante.São crianças com cerca de onze anos convivendo com homens de cinqüenta anos. E quem estimula isso são as próprias famílias que não querem ver suas filhas passarem fome. São tão pobres quanto aqueles homens de cinqüenta anos.
A exploração sexual infantil é alarmante. As balsas e navios que transportam mercadorias ficam parados em pontos combinados, esperando os barcos atracarem e as meninas passarem para eles.
A região registra índices alarmantes nas questões do gênero, detrabalho infantil, violência contra mulher, pedofilia e prostituição infantil.
Dentro desse cenário o marajoara ainda é mestre em sobreviver ao tempo adverso, aos extremos da chuva e da seca, às marés diárias, ao clima equatorial, à abundancia e à escassez, aos abusos do período colonial, aos senhores da borracha e da pecuária e da madeira.
A exploração predatória de recursos de maneira informal e fora da legislação, como o processamento de madeira em Breves, é um bom exemplo. Na medida em que as autoridades ambientais federais e estaduais passaram a cobrar a legalidade das madeireiras, estas fecharam as portas e colocaram 5 mil pessoas na rua, e estamos falando de mais da metade da força de trabalho de um município.
A pecuária tradicional perdeu seu significado na medida em que a pecuária de terra firme se instalou no sul do Pará, mais moderna e mais produtiva e, diga-se de passagem, bem mais destrutiva que aquela. Do ponto de vista econômico, a região encontra-se estagnada há décadas. A maior parte das atividades (pecuária bovina e bubalina extensiva, pesca artesanal e comercial, extração de madeira etc.) pode ser caracterizada como predatória.
A metade do açaí consumido no mundo vem do Marajó, boa parte do pescado da região vem do Marajó, mas não é valorizado, e não garante renda pra região…